terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Incertezas.

 

                                                      Image by johannylisbeth from Pixabay.





Incertezas.




Você sabe por que está aqui? Então, se você não sabe nada de si por que saberia algo concreto a respeito do que o cerca e do restante que consegue observar? O que você aprende seria a verdade ou apenas um jogo e ilusão para conter expectativas e impulsos incontroláveis que desestabilizariam uma mente com recursos limitados dentro de um infinito de opções. Onde começa, onde termina, as fronteiras são definidas por quem? A narrativa tem de se sustentar ou a esperança sucumbe no borbulhamento das incertezas, essa que cumpre o seu papel fundamental de interagir com a emoção, e assim apaziguá-la dentro das fronteiras iluminadas de uma existência. Como uma tênue sutileza cósmica convivemos com o infinito numa parceria estável na qual verdadeiramente nada sabemos, apenas especulamos com as estrelas para romantizar aquilo que somos. O pó querendo ter significância, o atrito que aquece a alma para que se sinta relevante dentro de tudo isso. A certeza? Que chegamos aqui abruptamente e sairemos daqui aparentemente sem data marcada, inevitavelmente, essa coisas estão estabelecidas no cenário, todo o resto não passa apaziguamento de conflitos impenitentes que surgem para impedir a ociosidade da alma que não tem permissão para descansar. E assim, contamos com as possibilidades, aquilo que se torna viável dentro das circunstâncias, aquilo que proporcione razão ao momento, Um amor? Um relacionamento? Ou uma missão? Teríamos assim que avaliar o momento, para um jovem, um amor seria uma boa proposta para mais velhos e calejados de tanto caminho uma missão teria maior aceitabilidade, dentro de cada trajetória moram as necessidades e isto faz toda a diferença. O trajeto cumprido delimita as escolhas, ao inicio da manhã de uma vida uma necessidade, ao entardecer aquilo que puder se acatar. Ortega y Gasset tem uma abordagem interessante a respeito desse tema:



O homem tem a experiência de que a vida não consiste somente no que há, mas também no que cria, que tira de si mesmo novas realidades, que a vida, portanto, não se define exclusivamente por suas necessidades, senão que, ainda mais do que estas, e transbordando-as, consiste em abundantes possibilidades”.



Será então, necessário criar dentro daquilo que não entendemos a possibilidade de uma realidade plausível que nos atenda e nos conforte, pois tudo aquilo que acreditamos que há, pode ser apenas um reflexo de um momento de imaginação , sem sustentação suficiente para se consolidar enquanto margem cognitiva para que se torne axioma. A arquitetura do imaginário tem de gerar sustentação para que, e para nós, exista esse intervalo existencial sem conflito e turbulência da realidade produzida na expectativa do desejo. O mundo é aquilo que construímos, pessoalmente ou em grupo, se o resultado se torna desconfortável, algo foi malfeito, mal planejado, e se entregou a sistematização de algum erro que veio a criar opções exageradas e conflitantes quanto a uma vida normal. Ortega y Gasset tem mais alguma coisa disser:



Há que se escolher. A emoção básica a partir da qual se dá o fenômeno da existência é o contrário da resignação, pois viver é “ter algo de sobra”. Começa a emoção básica da petulância, da prepotência existencial do humanismo”.



Se encontrar em certezas definidas onde floresce a convicção petrificada de sistemas que se apoiam no acúmulo de vontades satisfeitas por um padrão, não proporcionam o “algo a mais” ou “algo de sobra” para que se possa transcender além das franjas das margens psicológicas que nos abrigam. Nada pode ser considerado exato se nem ao menos você tem a certeza de como e o porquê está aqui. Se não sabemos, devemos assumir que não sabemos e partir em busca da apelidada de pedra filosofal pelos alquimistas e primeiros filósofos. O que ela era? Um conceito, aquilo que transforma a escuridão em luz, ignorância em sabedoria ou para os não iniciados, chumbo em ouro. Apenas um artifício para aqueles que não possuem capacidade de entender.



A penumbra tenaz que abriga essa eterna dúvida quanto a origem será nossa companheira de jornada, Não se trata de incapacidade ou de limites, lembre-se sempre, limites não existem, em todos os sentidos que você siga, não encontrará fim. Não é esse seu propósito, embora seja instigante explorar o impossível. O ocaso do nosso objetivo está além do limiar que nos impuseram para sermos o que somos. Incertezas, enfim, a pura indefinição como leito que receberá nossos passos nesse percurso, Sentimos, percebemos, nos entregamos a toda e qualquer emoção aleatória que encontramos, assim vivemos, nas margens dos prognósticos, sentenciando a cada mudança de paisagem que tudo não passa de destino. As ocasionalidades que ocorreram durante o trajeto forma simulações? Aquele amor encantador, aquele ódio devastador ou a indiferença aplicada na ocasião, ou então a ingratidão que acossa o espirito através do tempo. Vivemos, compartilhamos, seduzimos e somos seduzidos, indo além da fronteira da razão, e ainda assim, cremos e assumimos ter controle de algo que nem sequer percebemos como funciona. Devemos assim traçar o nosso horizonte, a nossa referência final, onde se oculta tudo aquilo que realmente desejamos, porque a esperança se alimenta da surpresa, do inusitado que conforta ou o que venha devastar nossas crenças. E assim, mais um pouco da filosofia de Ortega y Gasset:



O homem encontra-se em meio a várias opiniões, sem que nenhuma delas sirva de apoio firme para seus pés – por isso escorrega entre muitos “saberes” possíveis e cai, cai em seu elemento insólito, fluído… cai num mar de dúvidas. A dúvida é flutuação do juízo, ou seja, um remar desesperado em meio às ondas”.



Então, flutuamos, prosseguimos a deriva, sem um rumo específico, acreditando em fantasias que nos contaram para entretenimento enquanto estávamos vazios, sem conteúdo que abrigasse nossos sonhos. Temos a ciência diriam alguns, porém Aristóteles definiu a ciência: “A ciência é a presunção mais convincente”. Em suposições jazem tudo o que sabemos, e na lisonja que nossa característica proporciona, rumamos sem objeto específico que nos sustente dentro do lugar-comum o qual nos transformamos. Sentimos que a vida vale a pena ser vivida, Assim, a religião fornece a transcendência necessária para estabilização em meio ao turbilhão de simulacros que se apresentam de forma abusada para oferecer o pretexto no qual muitos se perdem.




Gerson Ferreira Filho.


ADM 20 – 91992 CRA – RJ.



Citação: Origem e epílogo da filosofia. José Ortega y Gasset. Vide Editorial.  



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domingo, 11 de janeiro de 2026

Papel e tinta.

 

                                                                Image by Nile from Pixabay.



 Papel e tinta.





Escrever, criar textos, organizar a realidade em letras, algumas vezes usar a criatividade literária e introduzir sonho e lembranças adaptadas ao momento onde se aplica a imaginação. Os russos foram especialistas nessa arte, dois deles Dostoiévski e Tolstoi até exageraram nesse campo. Para os que desejam possuir uma boa cultura, ler o que escreveram se torna obrigação. Detalhistas de grande desempenho fazem o leitor ingressar em outra época, em outro período de tempo registrado meticulosamente nos seus livros. Lê-los não é simples, pois se trata de um exercício de habilidades no campo da arquitetura mental, onde cenários serão construídos conforme o aprofundamento no texto. Claro, textos tão complexos foram criados em ambiente favorável, numa época sem distrações, e num clima onde lá fora no inverno estava a menos vinte graus. Mas dificuldades existiam, a maquina de escrever ainda não tinha sido inventada, eles escreviam em papel, enormes pilhas de papel que se transformariam em livros, não existia rádio ou outra qualquer facilidade, além de uma lareira para conforto e uma escrivaninha para o trabalho. O que se percebe de toda informação que passaram é o desenho social da sociedade russa daqueles dias, uma sociedade hierarquizada entre nobres, aristocratas e camponeses, o povo de forma geral. Essa parte quase sem direitos e acossada por uma aristocracia infame, até parece o Brasil de hoje, sim existem similaridades amplas. O Dostoiévski e o Tolstoi possuem estilos ligeiramente diferentes de narrar os fatos, o primeiro considero algo como a mecânica dos fluidos: possui um texto turbulento, o segundo Tolstoi, um deslocamento laminar, mais agradável e mais fácil. Ambos complexos e brutos quando necessário e incisivos na descrição do cenário e do comportamento humano. Numa sociedade onde não existia muito o que fazer, essa aristocracia gastava suas horas de tédio em reuniões, chás, e vodca, um momento para falar da vida dos outros, relatar acontecimentos políticos e contar a respeito de viagens ao exterior. Claro, tudo dentro de uma etiqueta de comportamento específica de época. Muitos personagens viviam de resultados de propriedades rurais, ou de escrever, e claro, da vida militar que proporciona um bom soldo para altas patentes. E claro, os oportunistas e aproveitadores, que numa sociedade onde a cultura, que deveria ser muito limitada na época dava oportunidades aos que possuíam um bom transito nessa área. Vivia-se também de aparências, os camponeses eram os únicos sem acesso a alguma qualidade de vida, apenas eram componentes de cenário. Este ambiente é bem representado no livro Os demônios de Dostoiévski, que imprime um claro desassossego social nos relacionamentos. Que se esgarçam de acordo com expectativas fragilizadas dos personagens. Como o narrado em certo trecho do livro a respeito de um de seus protagonistas:


- Espera, aguarda mais um pouco. Ele é um maricas, mas para ti é melhor. Aliás um maricas lastimável, não valeria absolutamente a pena nenhuma mulher amá-lo. Entretanto ele merece ser amado pelo desamparo, e tu deves amá-lo pelo desamparo. Estás entendendo?”.


O ser humano não muda muito através das eras, qualquer convívio social tem suas particularidades padrão, seja lá onde for. Atender as expectativas do grupo ou dos mais próximos se torna uma exigência, ou será julgado por aquilo que não oferece. Mesmo que seja de relacionamentos extremamente confiáveis. Ao homem se exige ao menos ímpeto e ousadia, quando vocês lerem o livro entenderão. Aqui eu ofereço apenas um incentivo para que mergulhem em literatura de alto impacto. Quanto aos camponeses, estes apenas sobreviviam com muita dificuldade, excluídos de qualquer benéfico, a luta pela sobrevivência naquela sociedade era cruel, Não podemos estranhar que anos depois explodiu a revolução comunista demolindo a monarquia e toda aristocracia, aquilo que eles, a aristocracia não via, acabou por engolir a todos. Ignorar a maior parte da sociedade e viver em negação dos problemas que acontecem a volta não é um bom negócio, coisas assim geram revolta que se alimentadas no momento exato, incendeiam todo um estilo de vida. A coisa fica mais explicita no livro de Tolstoi Ressurreição, nesse trabalho ele descreve as agruras de uma jovem mulher que se envolve em determinado momento da vida com um crime supostamente cometido por ela. Com inspiração pessoal , de ocorrências amorosas da sua juventude onde homens e rapazes bem nascidos e com alguma condição social razoável se serviam sexualmente das camponesas jovens e belas, claro, sem compromisso. Este livro serve de comparação com nosso sistema jurídico atual, as semelhanças são inevitáveis de se encontrar, o mesmo ritmo de privilégios, a importância do quanto dinheiro você tem, e o peso dos bons relacionamentos na finalização e consequências como resultado esperado. Nada mudou, ao menos se comparando com nosso país atualmente, o procedimento comportamental da justiça é exatamente o mesmo. Para produzir essa obra Tolstoi se valeu da amizade com um juiz e com varias visitas ao judiciário e seus julgamentos de época. Procurou assim ser bastante fiel ao procedimento e comportamento do conjunto de justiça da época.



Sendo assim, este livro conta a trajetória de vida de uma jovem camponesa dentro daquela realidade de abandono e quase miséria da Rússia pré-revolução socialista, lá por 1885 a 1890. O livro é de um detalhamento singular e severo quanto aos pormenores de toda a narrativa que envolve a “eficiência” de um judiciário que julga conforme a classe o pagamento de advogados bem relacionados na estrutura de justiça. O autor insere uma curiosidade mórbida, o juiz que julga a protagonista, no passado, já havia se servido sexualmente dela na juventude, o que confere um ar constrangedor, de certa forma no julgamento. Numa passagem do livro fica evidente que o alvo principal do livro é esse:


São severos porque você não tem dinheiro. Se fosse uma endinheirada e tivesse um advogado daqueles bons, aposto que tinham absolvido – disse Korabliova”.


Terá sido esse comportamento um bom contribuinte para os eventos desastrosos de mais umas décadas para frente, que provocou o colapso político russo? Se torna bom analisar os eventos históricos para reparar como exageros e licenciosidades podem levar a destinos terríveis de uma sociedade. A revolução comunista triturou toda uma geração, de Lênin a Stálin não sobrou quase ninguém dessa organização social anterior ao desastre revolucionário. Uma organização insensível e corrupta, onde privilegiados manipulavam as regras e não se importavam com o sofrimento da maioria. Bom, não irei contar para vocês mais detalhes, o meu propósito aqui é incentivar a todos vocês o mergulho nessa literatura densa, encorpada e que irá se tornar um benefício intelectual de grande porte.




Gerson Ferreira Filho.


ADM 20 – 91992 CRA – RJ.



Citação:



Os demônios Fiódor Dostoiévisk. Editora 34.


Ressureição. Liev Tolstói. Companhia das Letras.  



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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

As dores do mundo.

 

                                                           Image by Anne from Pixabay. 



 As dores do mundo.





Existir, enfim, um tratado de perseverança sem retribuição, sem promessas equivocadas e com atributos muitas vezes de aspecto perverso e contraditório. O que eu faço exatamente aqui? Muitos devem se perguntar, esse ócio onde a expectativa de ser feliz fornece algumas migalhas de força para que possamos cumprir a trajetória conturbada das ocasiões que se apresentam, e muitas vezes sem nenhuma parcimônia ou leveza para que seja considerada algo bom. Não há como saber afirmativamente, por mais treinado nas probabilidades das ciências exatas, ao começar um novo rumo, uma nova aventura, tudo pode subitamente se transformar em desilusão ou em raríssimas oportunidades em algo positivo. O viés negativo é preponderante, parece ajustado para isso mesmo, oferecer desafios contínuos, onde os atritos e aleatoriedade proporcionarão a tradicional inquietação litúrgica do processo. Com lábios de infinito, as propostas sempre se apresentam com sua sedução característica para oferecer o impossível como se fosse uma possibilidade bastante plausível. E não adianta preparar exéquias ao nosso destino, a proposta oferecida e aceita não se flexionará ao desespero e a angustia da razão. Então, se é assim, tome um banho de atitude e vista a determinação que a ocasião pede, se é assim, ofereça seu lado mais perigoso quanto ao cenário, ser um carneiro nessa selva de contradições nãos será vantajoso, seja o lobo. E lembre-se, seja imprevisível, tudo aquilo que pode ser mapeado antecipadamente já perdeu antes da luta começar. Saciar-se com impulsos que se aprestam como opção preliminar pode não ser uma boa política. Utilize da periferia do instinto até ao núcleo da premonição. O filósofo Schopenhauer tinha uma interpretação dura da realidade:


Devemos considerar a vida como uma mentira contínua, tanto nas coisas pequenas como nas grandes. Prometeu? Não cumpre a promessa, a não ser para mostrar quanto o desejo era pouco desejável: tão depressa é a esperança que nos ilude, como a coisa com que contávamos. - Se nos deu, foi só para tornar a nos tirar. A magia da distância apresenta-nos paraísos que desaparecem como visões logo que nos deixamos seduzir. A felicidade, portanto, está sempre no futuro, ou no passado, e o presente é como uma pequena nuvem sombria que o vento impele sobre a planície cheia de sol; diante dela, atrás dela, tudo é luminoso, só ela projeta sempre uma sombra. O homem só vive no presente, que foge irreversivelmente para o passado, e afunda-se na morte”.


Na verdade, na vida, as expectativas quase nunca se cumprem, se consolidam como resultado, vivemos de resultados obtidos eventualmente no passado ou nas asas de um a possibilidade futura que nos impele sempre em frente, mas sem garantia nenhuma de se realizar. Nunca há garantias, um compromisso que se possa chamar de verdadeiro, o que resta é a dedicação com a qualidade que colocamos no trajeto, com a determinação pessoal que carregamos, onde o turbilhonamento semântico da filosofia não estabeleça conflitos no arquétipo da alma e sendo assim até poderemos obter resultados inesperados, viver sem contar com o amanhã, até porque ele realmente não existe, se trata de uma construção, em hipótese, que terá o formato com e das atitudes e com a arquitetura do passado que assim estabeleceu a regra básica. O que foi, estabelece vínculos de harmonia. O presente estabelece a ação, o lugar onde existimos onde todas as dores do mundo são percebidas e abrigam nosso sonhos e vontades.



As contradições do percurso devem ser assimiladas, introjetadas e consumidas como experiência, internalizando na alma todo percurso plausível a ser percorrido, como se fosse uma refeição que irá lhe possuir e recarregar o espírito de energia para cumprir o objetivo determinado. A penumbra da noite não indica inutilidade, ela descansa no leito das estrelas para proporcionar um caminho com energia renovada no amanhã dos passos que serão dados. Claro, nada se torna simples e a proposta de viver, de existir não se apresenta nunca como uma coisa suave, ela é ríspida, desafiadora, como um dia de mar revolto, onde os esbarrões com as águas proporcionam desconforto e náuseas. Schopenhauer trabalha mais um pouco nessa área:


A vida não se apresenta de modo algum como um mimo que nos é dado gozar, mas antes como um dever, uma tarefa que tem de se cumprirá força do trabalho; daí resulta, tanto nas grandes como nas pequenas coisas, uma miséria geral, um trabalho sem descanso, uma concorrência sem tréguas, um combate sem fim, uma atividade imposta com uma tensão extrema de todas as forças do corpo e do espírito”.


Toda proposta será um caminho e toda organização psíquica conterá o sofrimento da decisão de existir para o desafio, está pronto para essa jornada? Tem certeza? Apenas o consentimento, a aceitação do trajeto já te faz especial, a boa vontade o desprendimento perante a dor de ser e estar aqui representa o merecimento de ser escolhido. A aleatoriedade cósmica é o disfarce de Deus para confundir os arrogantes, essa gente pensa ter controle, mas na verdade são crianças brincando com um formigueiro.



Em algum momento receberão auxilio, quando estiverem prontos. Está no Caibalion:


Quando os ouvidos do aluno estiverem prontos para ouvir, então virão os lábios para preenchê-los de sabedoria”.


O princípio da correspondência é inevitável e definidor da construção da personalidade e do que se chama de destino. Nada, absolutamente nada se torna possível e plausível sem ele. Apenas ele afasta os obstáculos do presente do passado e do futuro. Cada centímetro da ilusão a qual você pertence está metrificada por esse critério, essa lei. Os paradoxos não possuem força aqui:


Como acima, assim abaixo, como abaixo, assim acima”.


O paradigma do espelho rege teus planos e tudo será reflexo das suas ações. O princípio básico que dá o resultado conforme suas ações. Quem planta trigo colhe trigo, quem planta milho colhe milho, cada um colhe o que semeia, inevitável! Lembre-se, viver é apaixonante e complicado, porque a paixão embriaga, e portanto prepare-se para estar desnorteado em alguns momentos, tudo isso pertence ao processo, sentir não ter sentido define o que somos, um oceano de incertezas desafiadoras a que pertencemos a algo que não compreendemos e onde aguardamos na periferia dos sentidos para possuir relevância dentro do infinito no qual por acaso ou por indução sistematizada nos encontramos.




Gerson Ferreira Filho.


ADM 20 – 91992 CRA – RJ.



Citações:


As dores do mundo, Arthur Schopenhauer. Editora Edipro.


O Caibalion. Hermes Trismegisto. Editora Camelot.


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domingo, 4 de janeiro de 2026

Desacatos.

 

                                                           Image by Neo Tam from Pixabay.






Desacatos.





Nesse mundo, entre malandros, espertos e sonsos sempre há desperdício de potencial. E portanto, como sou apenas uma alma sem protagonismo que cumpre o caminho entre essas ocasiões que se distinguem pelo vazio absoluto que representam, vou eu nesse plano, procurando atitude para encontrar minha metade, a verdadeira! E não um simulacro oportunista, que apenas se interesse por si e seus valores. Porque estar desnudado em corpo e alma perante a apenas questões pessoais de outrem não produz sustentação. Resolvi, enfim, criar um conjunto estruturado de situações em referência a nossa realidade grotesca desse mundo em decadência, onde os limites éticos foram sumariamente rompidos, apenas para controle e registro de um mundo decadente e corrompido quase que completamente. Então, sendo assim, vamos flutuar literariamente nessa oportunidade inusitada para absorver a realidade dos desencontros que por vezes parecem sórdidos, outras vezes de tão controversos, são merecedores de que escorram pela sarjeta até o esgoto. Viver aqui, ocasionalmente nuca foi fácil, coisas que hoje parecem rotina, já existiam em passado remoto, não por escolha, talvez, mas por inclinação genética, algo desandou entre os habitantes, e assim, poderíamos dizer que, a luta pela vida de forma feroz, produziu truques que se consolidaram no perfil da população. Este extrato social degenerado produziu uma geração de componentes sociais afeitos ao truque desonesto, a trapaça e a venalidade, hoje já tornada explicita e sem manobras com algum eufemismo para ser mais discreta e imperceptível pelo público geral, a explicitude e o exibicionismo hoje, se tornou a regra. Pudor? Ora, isto é para gente que conhece limites éticos, e não para depravados. E assim, tudo isso, esse comportamento exótico vem de longe, das profundezas abissais das Capitanias hereditárias, e foi migrando e se misturando com a cultura local, indígena, com o ritmo sofrido dos escravos e no fim aqui estamos, essa mistura genética que nos faz em maioria pardos, pardos na cor e na composição de nossa lucidez que se tornou opaca e versátil nas alegorias que cria para escapar das dificuldades. Entre malemolências e malandragens eu cheguei aqui quando os bondes gemiam com suas ferragens através dos trilhos da cidade. O cenário tinha um ar romântico de uma organização dissimulada, onde seria possível até imaginar seriedade, mas já não era assim, e o carnaval estava ai para isso. Para mostrar a verdade oculta. Onde o verdadeiro espirito do povo se abria para um escrutínio de mais profundidade. A tal elegância de época era perdida quando executivos e gerentes respeitáveis eram encontrados nas ruas fantasiados de bebê com pasta de abacate esfregada no traseiro para simular que estava cagado, e ainda de chupeta. Onde foi toda aquela empáfia, todo o decoro exigido para a função que existam? Ah, é apenas brincadeira, alguém já disse por ai, se não me engano foi Freud, que brincado se diz até a verdade.



No carnaval se torna possível mostrar aquilo que se realmente é, se transformar na realidade, abandonar a máscara social para extravasar desejos reprimidos e opções controversas quanto ao trato social. No fim, foi tudo brincadeira, uma piada mal acabada, uma loucura de momento. Não se enganem, nesses momentos e nas bebedeiras se conhece com mais profundidade a alma humana. E assim, desde muito novo tive de criar desacatos com a realidade para de alguma forma manipulá-la e obter alguma vantagem momentânea que me servisse e me fosse útil. Afinal, por característica própria e por auxílio de já um bom padrão cultural que carregava comigo, aprendi desde cedo a analisar e interpretar personalidades. E exatamente por isso eu sempre recomendo, leiam, leiam de tudo de romances a livros técnicos, de filosofia a qualquer coisa que possa acessar, o melhor exercício para o cérebro é a leitura. Nunca será perda de tempo ler, seu cérebro cria mundos, cenários, paisagens de acordo com a narrativa que o livro oferece, oferece também uma viagem no tempo, enquanto você estiver dentro de um livro, você se posiciona dentro daquele cenário, naquele ambiente e época. Sentindo as angustias, percebendo a dor e a alegria dos personagens e gerando em si, a cada virada de página, uma expectativa, de acordo com o conteúdo. E o mais importante, acumulando as lições aprendidas por essa viagem inusitada. Para um leitor assíduo, o mundo fica mais simples, as surpresas já não surpreendem tanto mais, e as soluções aparecem no fluxo de raciocínio espontâneo das circunstâncias. Cada livro, um universo diferente, se transforme num saltador de universos. Estar dentro de um Dostoiévski e depois dentro de um Tolstoi, em outro momento mergulhe no Ortega y Gasset e em mais um caminhe com Sancho Pança e Dom Quixote ao mergulhar em Cervantes. Ou quem sabe, queira mergulhar mais fundo com Virgílio Maro na Eneida. Entenda! Sempre em um lugar de despreparados, quem tiver o melhor nível intelectual vai se destacar, e uma boa educação que possa proporcionar uma conversa de alto nível abre portas e oportunidades aparecem. As entrevistas de emprego servem também para isso, avaliar o nível intelectual do candidato, e sua fluência cultural, porque isso interfere no relacionamento em grupos e equipes. Não adianta nada apresentar um canudo universitário e se mostrar um completo vazio cultural. Ser bem articulado depende de quanto você leu e conheceu.



O método é simples e depende de estabelecimento da disciplina e rotina. Habitue-se a ler, exercite seu cérebro para que estabeleça espaçamento para mais conteúdo, técnico, que é o necessário para trabalhar, e o cultural para se tornar destaque e assim ficar em evidência. No fim, você criará uma necessidade, a leitura será algo indispensável como beber água. O que a princípio era sofrimento, se tornará lúdico e no final, essencial. Podemos aqui até citar uma máxima de Albert Camus:


A meio caminho entre a monotonia e a loquacidade, eles tinham que encontrar uma linguagem para sua obstinação”.


Então, assim precisamos nos persuadir, superar a monotonia, a preguiça, o desinteresse que atrapalha a jornada, superar o primeiro momento onde o mundo nos chantageia com apegos fúteis e vazios, e enfim, obter a obstinação necessária para construir uma história. A vida é um claro desafio, portanto, internalize, introjete-se com propósito, porque, imiscuir-se na sabedoria te elevará a patamares que lhe favorecerão na trajetória dos acontecimentos, e fará de ti o destaque que tanto almejou.



Gerson Ferreira Filho.


ADM 20 – 91992 CRA – RJ.


Citação:


A inteligência e o cadafalso. Albert Camus. Editora Record.  




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sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Da densidade e dos objetivos.

 


                                                       Image by Gerd Altmann from Pixabay.



Da densidade e dos objetivos.




Então, integrar-se a um contexto óbvio parece natural a não ser que exista mais textura nesse rótulo que nos ofereceram para a identificação dos momentos diversos que ocupam nossos espaços e o nosso tempo. As ocasiões se entrelaçam, e mesmo tão distantes, constituem e constroem as paredes que nos sustentam decisivamente. A vida prossegue, mas sempre os nossos fragmentos estarão assim interagindo conosco, para o bem e para o mal. Uns causarão ternura, outros desassossego, alguns desconforto e outros a saudade do que não tem mais retorno. Assim se constitui a trajetória, essa trilha conturbada que se chama vida, onde semeamos, escolhemos, lutamos e algumas vezes desistimos, tudo para sentir o desejo de que enfim, valha a pena estar aqui. Os possessivos se contrairão em espasmos de fluxo, os desapegados deixarão ir oportunidades escondidas nas reentrâncias do destino, e o determinado fará de tudo isso a tempestade de onde o vento criativo lhe fornecerá caminho. Não por desapegos e muito menos por exageros, a vida requer disciplina, equilíbrio e muita força de vontade, seus atributos não possuem arestas salvadoras, ou você se entrega ou será descartado na primeira sacudida quando o vento acossar a realidade. O sopro primordial, que lhe deu vida, possui circunstâncias efêmeras e inusitadas, cuide-se e mantenha o foco para esse momento, talvez ele não se repita mais. E se por acaso existir uma nova oportunidade, você não se lembrará de nada que viveu aqui, agora, nesse intervalo único. Minha literatura é desnatada, quase um produto para dietas com baixas calorias, mas eu recorro sempre ao que existe de melhor no ramo dos que escrevem, então, aqui não se preocupe com uma obesidade mental, isto fica por conta desses socialistas, que esclerosam sua percepção para possuir seu espírito. E uma alma carregada de negatividade se torna pesada, com cita Rubem Alves:


Quando a alma é pesada, ela precisa de muita coisa para não se desequilibrar. Mas se ela é leve, não precisa de quase nada”.


Tudo depende do relacionamento entre espaços, definidas por suposições, todas elas geram o arcabouço ético de premissas que tentarão conduzir com garbo à luz dos nossos passos. O peso que se sente passa a ser circunstancial, um desconforto atribuído a peso material mas que na verdade não possui substância para ser assim. Porém, sentimento pesa, fornece lastro psicológico dentro de seus atributos e se torna inconveniente como peso a se carregar. Rubem Alves cita:


Que a alma tem peso é fato comprovado pela experiência de cada um e pelo cotidiano da pesquisa clínica. Dizemos: Estou me sentindo leve! Estou me sentindo pesado!… Tais declarações de fato, que não têm relação alguma com o peso dos corpos, pois que magros se dizem pesados e gordos se dizem leves, só podem, portanto, se referir à alma”.


O resultado de nossas ações geram carga, ao menos para os que possuem consciência para usufruir de julgamento, isto está presente até em romances como Crime e Castigo de Dostoievski. Aquele fato consumado que sempre retorna para exigir seu resgate que apazígue a alma de vez. Não somos irracionais, que funcionam apenas com instintos básicos que governam necessidades fundamentais para permanecerem vivos, não produzindo assim nenhuma análise de contexto além de comer, dormir, fazer sexo para se reproduzir e expelir suas necessidades e morrer. Com a regressão cultural dos nossos tempos já temos muita gente vivendo assim, nessa irracionalidade padrão. Já perceberam que em ambientes de baixa cultura, as brigas por espaço e preferências rotineiramente acontecem? Temos nesse meio apenas força física, não há mais ponderação e negociação, o que parece meu, se torna meu se sou mais forte, na natureza, no mundo animal irracional é exatamente desse jeito.



Um mais forte domina e comanda o rebanho ou a alcateia, ou seja, lá que grupo for. Temos qualidades superiores, não somos naturalmente assim, possuímos um cérebro com muito mais recursos, mas ele tem de ser alimentado com boa cultura, com conhecimento para que possa se desenvolver e produzir um homem melhor. Sem uma boa aquisição de conhecimento vai restar apenas o lado selvagem de ser, que ainda trazemos dentro de nós. Rubem Alves aborda o tema:


É isso que nos diferencia dos animais. Os animais vivem em meio às presenças. Mas nós somos moradores das ausências. Desejo: reconhecer que algo está faltando. Saudade. Eu sugeriria que espiritualidade tem algo a ver com isso: viver em meio à presença de uma ausência. É daí que surge tudo que de belo fazemos: o amor, a poesia, os jardins, a música, as revoluções...Tudo. Fazemos essas coisas para completar esse pedaço que está faltando”.


Um ser humano, com sua capacidade mental completa espaços, busca qualidade, entra no vazio e o preenche com as situações que vão lhe realizar quanto a satisfação dos seus desejos. Todas as presenças naturais não nos bastam, temos a necessidade humana de povoar ensejos com algo que nos cative e nos envolva e assim justifique nossa condição de reformadores da realidade, nenhum animal irracional possui essa capacidade, portanto não devemos criar uma proximidade com eles nesse critério, temos raciocínio.



Em tudo isso somos crianças perdidas nesse universo de possibilidades e de trapaças onde nossas esperanças flutuam ao vento primordial que acaricia e acoça dependendo do seu humor multifacetado onde os objetivos colidem com propósitos apena para causar contrariedade na textura do tempo. E em tudo isso tem também a religião, uma necessidade de estabilização psicológica mas também um eficiente método de controle, ela deveria ser como Rubem Alves define, um pássaro voando, livre e sem conflitos, pois até onde entendemos, existe apenas um Criador. Porém, uma característica bem humana é o orgulho e o desejo de estar certo. Rubem Alves diz:


Mas aí vêm os humanos com suas arapucas e gaiolas chamadas religiões. E cada uma delas diz haver conseguido prender o Pássaro Encantado em gaiolas de palavras, de pedra, de ritos e magia. E cada uma delas afirma que seu pássaro engaiolado é o único Pássaro Encantado verdadeiro…”.


Portanto, somos complicados, complexos e próximos ao conflito e ao separatismo. Acredito que tudo faça parte do teste, da avaliação de um produto, de algo que mereça tanto sacrifício. Ou algo ou alguém aprecia desperdício de energia o suficiente para perder tempo com alguma coisa que parece não ter a mínima chance de dar certo.





Gerson Ferreira Filho.


ADM 20 – 91992 CRA – RJ.



Citação:


A eternidade numa hora. Rubem Alves. Editora Paidós.



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sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

O coletor de ocasiões.

 

                                                         Image by Heiko Stein from Pixabay.





O coletor de ocasiões.



Ah, se suplícios lancinantes margeassem a borda das hipóteses psicóticas apenas para serem tragadas pela insensatez contumaz de um suposto destino, assim construído na demência humana que estabelece seu desastre particular estaríamos apensas trafegando no contrassenso do período ocasional das urgências humanas que se formam em contínuo contato com o desatino e a arrogância impertinente das ocasiões. Porém, a coisa se torna muito mais complexa neste lugar onde a gordura do corpo se incorpora no calor excepcional para agir como um lubrificante da continuidade existencial que se impõe apesar da ousadia do clima que insiste em coagir o corpo do homem. A verdade, trago em mim tantos momentos, tantas circunstâncias, um oceano de ocasiões, onde naveguei destemidamente para possuir o que hoje me transborda a alma. De fato, sou um colecionador, tenho um sótão imaginário, virtual, cheio de conceitos e determinações, onde abrigo tantas convicções e incertezas quanto as estrelas no céu. O memorial das ações e decisões tomadas, respostas assumidas ao que se apresentou como desafio, pois se o absurdo é a resposta, Albert Camus certamente tem a resposta. Não precisamos de compreensão, apenas e portanto, evitar trafegar nas expectativas e viver para vencer os desafios mesmo que pareçam impossíveis de serem vencidos. Transforme sua paixão em propósito, em vontade inquebrantável de existir, apesar dos revezes, e da maledicência das ocasiões infames que tenha que enfrentar. Lembre-se sempre: o jogo tem de ser jogado, escolha a peça que deseja ser no tabuleiro. Acosse o destino como se fosse um chicote presunçoso que não aceita o trajeto que lhe foi imposto, ao margear o inaceitável, você o coloca dentro de você, se for necessário que se cumpra, então, transfigure-se em desafio, uma ousadia materializada no inconformismo com a realidade. Dentro de sessenta anos eu já mudei tantas vezes minha configuração psicológica para sobreviver que simplesmente encaro cada etapa como uma vida diferente, que somados na trajetória construíram minha realidade hoje. Derrotas, trapaças, traições, perfídia, maledicência, falsidade ocasional e a sistematização da perda de confiança no ser humano, não é fácil. O mundo real machuca, tortura, desafia e impõe pela força de péssimos sortilégios uma rotina desafiadora para qualquer um, os que entendem o cenário seguem em frente, os que não, sucumbem e ficam pelo caminhos da vida.



Se transformam em projetos fracassados, em resíduo ocasional fruto do processo, onde são triturados sonhos que foram incapazes de se sustentar e se adaptar na pauta ocasional que o momento ofereceu, lembrem-se, a paixão, o antídoto contra a negatividade, apaixone-se por si mesmo, ame-se e supere qualquer obstáculo que venha com odor de derrota, devo lembrar que a loquacidade pode ser indesejável nesse plano, ser discreto conta mais e conforme estabeleceu Albert Camus:


O autor medíocre dessa forma é levado a tudo o que lhe agrada. A grande regra do artista, ao contrário, é esquecer parte de si mesmo em proveito de uma expressão comunicável. Isto não ocorre sem sacrifícios”.


Sim você está no palco, no teatro da vida, portanto, como já citei, apaixone-se por seu desempenho e seja a harmonia determinante do cenário. Existiram com certeza momentos intoleráveis, ocasiões onde a fugacidade das certezas proporcionarão dúvidas e o débito que gerarão e recairão no custo do momento. Analisando o sarcasmo de Nicolas Chamfort, Camus cita algo útil para nosso tempo:


O que é efetivamente uma máxima? Simplificando, podemos dizer que é uma equação, em que os signos do primeiro termo se encontram de modo exato no segundo, mas numa nova ordem diferente. Por isso a máxima ideal sempre pode ser invertida. Toda a sua verdade está nela mesma e, assim como uma fórmula algébrica, ela não tem correspondente na experiência. Podemos fazer com ela o que desejarmos, até o esgotamento das combinações possíveis entre os termos do enunciado, sejam eles amor, ódio, interesse ou piedade, liberdade ou justiça. Podemos até, e sempre como na álgebra, extrair de uma de suas combinações um pressentimento da experiência. Mas nada disso é real, porque nela tudo é geral”.


Sejamos indulgentes com essa realidade, ela se ordena entre termos contratuais que insistem em nos reter na plasticidade de seus tempos opacos e submissos ao aprisionamento mental coletivo. Ser indivíduo dentro de tudo isso pode ser exaustivo, muito louco, algumas vezes.




Por isso, por todas essas circunstâncias, devemos adquirir multiplicidade existencial mesmo sendo apenas um. Como um desdobramento quântico que mantém seu entrelaçamento apesar das distâncias. E assim, com tantos laços específicos de uma existência assumidamente fatal, caminharemos no trajeto que nos deram para nos tornarmos matéria para os bardos possuírem uma narrativa para ocasionalmente divulgarem entre interessados em poesia e canto. E assim cá estamos, mais uma vez em fim de ciclo, na fronteira artificial do tempo para instintivamente estarmos com as origens. Somos todos filhos do mar, materialmente a água nos constitui e abriga nossa alma. Este grande ser vivo que proporcionou o corpo que usamos será mais uma vez procurado, não para lazer mas para culto e um ritual de travessia. Ele abusadamente se espalha por todos os cantos, impondo seu gigantismo colossal, poucos entendem isso, esse retorno ocasional as origens. Em associação com tantas outras coisas, adquirimos um corpo para chamar de nosso. Eu, pessoalmente vou cumprindo meu caminho, já deve estar no fim, nunca se sabe. O objetivo parece amplo, por isso coleciono ocasiões, para não me perder de você, destino. Porque enquanto a missão não acaba, minha voz grave irá assim provocar instintos ao pé do ouvido quando o clímax se apresentar na urgência da carne. Um feliz ano novo!




Gerson Ferreira Filho.


ADM 20 – 91992 CRA – RJ.





Citação: A inteligência e o cadafalso. Albert Camus. Editora Record.


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sábado, 20 de dezembro de 2025

A marca do momento.

 

                                                    Image by Felix Lichtenfeld from Pixabay.





A marca do momento.




Então, aqui estamos na fronteira de mais um natal, o que já foi um dia para muitos uma data de celebração, hoje adquire formato de súplica. Os prognósticos são infames, não há no cenário algum vestígio de vitória, apenas capitulação perante o ignóbil assumido dos poderosos de plantão. Vorazes em dilapidar a qualidade de vida da população. Com uma expectativa de futuro terrível, os poucos com capacidade de raciocínio lógico sabem, o desastre virá esfomeado. Não poupará ninguém, de coniventes a inocentes, todos vão ser tragados nesse sumidouro de esperanças. O ano? Dois mil e vinte e cinco, do calendário cristão. Se a civilização ocidental vai ter condições de suportar todos os ataques engendrados contra ela é impossível saber, hoje temos a peculiar atitude de membros que constituem esse mundo, lutando de forma enfática contra ele. As populações foram induzidas a um comportamento suicida, ao relativizar seus melhores valores, em nome de excesso de tolerância se fragilizaram ao ponto de provavelmente não existir mais retorno. Um descuido fatal para o conjunto de nações que se propuseram a se entregar à selvageria consentida de momentos inadequados para o convívio grupal mais equilibrado e com regras específicas apoiadas na letra da lei civilizada. Hoje, neste momento, temos a permissividade e a vantagem pessoal exclusiva de pequenos grupos de poder em prática rotineira. Para um pequeno grupo não há limites éticos de comportamento, a lei? Essa se retinge aos de fora desse mundo privilegiado por relacionamentos difusos sob a capa da neblina da conivência. O restante que se vire, que sobreviva com auxílios governamentais e se divertindo com shows de artistas que praticam vassalagem por dinheiro público. Constrangimentos? Nenhum! Afinal, já não produzem mais nada de interessante há décadas, se vivessem de sua produção artística hoje estariam certamente pedindo esmolas. No mundo político, oposição e situação se digladiam para ver quem é mais sujo, basta uma ligeira investigação, que situações constrangedoras surgem dos armários e gavetas que escondem os cadáveres da ilegalidade oculta pelo cinismo abrangente. Sendo assim, esperar solução desse ambiente se torna algo que equivale beber água do esgoto e esperar não sofrer um resultado negativo com isso.



O palco da politica está sendo montado como sempre, afinal o circo tem de iludir e distrair a população, então, o candidato que vai perder parece que foi escolhido. O simulacro de democracia tem de ser preservado, fica muito feio assumir diretamente um regime de força não democrática, prejudica os negócios internacionais. Pasmem, tem gente que dentro de toda essa situação que acredita em eleição. Bom, afinal, engajamento político sustenta muita gente, existe um fundão eleitoral com recursos para remunerar os palhaços que irão assim propagar a comédia política. Foi montada uma estrutura circense sedutora aqui para esse evento. Nem preciso mencionar muito o jornalismo de aluguel ou os verdadeiramente idiotizados por ideologia, estes como cães esquizofrênicos em surto correm sempre no sentido contrário que a carruagem passa. Quem se informa somente pela mídia mainstream pode ter dano mental e surtos psicóticos, pois vive num mundo de fantasia. E ainda para adornar o momento temos um cometa de passagem, o 3 I/Atlas, segundo as tradições de civilizações antigas, um cometa é um enorme mau presságio, ele sempre precede revoluções, guerras, epidemias, desastres naturais de grande proporção. Não seria de estranhar se ano que vem tivéssemos alguns eventos desastrosos, aqui no campo político, certamente, pois esse cenário está em construção acelerada. Quem entende um mínimo de economia sabe disso. Mas nós temos um vasto território, com muitas riquezas cobiçadas, sempre se pode vender algo para obter sobrevivência. E sendo assim, não haverá falta de dinheiro para o atual governo enquanto existir patrimônio nacional para trocar por sobrevivência. Os cobiçosos internacionais não se importam com ética, querem apenas vantagem.




E portanto, prosseguimos com o povo contido em sua energia potencial como uma mola comprimida no corpo de um mecanismo qualquer, Ele, o povo, tem energia acumulada, mas está submetido a pressão do sistema, só atuará quando esse controlador da realidade assim o quiser. Não estou falando aqui da mecânica simples mas psicologia fenomenológica, de Jean-Paul Sartre. No qual estudo do tema diz:


A energia que se acumula na mola comprimida, não a sentimos como puro armazenamento passivo, mas como uma força viva que cresce com o tempo. Aqui a imagem da mola já não é simples imagem da mola. Ela é além disso, alguma coisa indefinível: uma imagem da mola viva”.


Dentro dessa opressão persistente e de característica preponderante, submete a massa popular ao seu destino de eterna força contida entre receptáculos de abrigo das vontades indesejadas por uma elite singularmente cruel.



Este mecanismo de controle estratégico no campo psicológico tem eficácia garantida nas mãos de quem sabe aplicar sua característica de segurança. Jean-Paul Sartre prossegue:


É disso que se trata: o oprimido é a mola. Mas por outro lado, na mola comprimida já podemos ler com evidência a força que ela se distenderá: uma mola comprimida representa claramente uma energia potencial. Essa energia potencial será evidentemente a do oprimido, uma vez que o oprimido é a mola”.


A sutil contenção de energia popular se torna um mecanismo extremamente útil para dominadores, exatamente essencial na governança de sistemas que desejam perpetuação no poder. Pois em mais uma definição Sartre completa:


Um organismo: teremos uma intuição absolutamente inversa, algo que poderia se expressar por essa frase: a opressão avilta e degrada os que a sofrem. Mas na imagem da mola deixada por sua conta e vista pura e simplesmente como imagem da mola tampouco poderia bastar para nos persuadir. Sem dúvida a mola acumula força. Mas nunca o suficiente para poder se desvencilhar do peso que pesa sobre ela”.


Então, por isso precisamos nos desvencilhar do imaginário planejado e passar a enxergar o mundo real, aquele fora do controle e não abrigado dentro dos limites impostos por ideologia e procedimentos de sistemas e governos, é preciso atitude, e como conseguir? Estudando, se qualificando, lendo boas obras e bons autores, que possuam uma outra visão de mundo bem diferente daquela que lhe foi oferecida para transformá-los em mola, retida, comprimida e incapaz de acionamento pelo peso do sistema de contensão do esforço mental da ação que viria lhes favorecer. Tudo passa pelo aprimoramento, a cultura verdadeira, a qualificação o tira do perfil objeto, da provável manipulação, Portanto, a liberdade passa pelo trabalho cultural de qualificação do povo quanto aos reais valores da liberdade política e econômica que provoque o litígio entre os valores dos que controlam e a verdade que liberta.





Gerson Ferreira Filho.


ADM 20 – 91992 CRA – RJ.



Citação:


O imaginário. Psicologia fenomenológica da imaginação. Jean-Paul Sartre Editora Vozes.



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